Escravidão no Astral – Quilombo Projetivo

Relatos, Relatos Saulo Calderon 3 Comments

Recife, 04 de setembro de 2008

 

Por favor, quando for ler se possível clique na música abaixo para melhorar na sintonia do relato. Essa música tem uma melodia e a voz da Virgínia chega bem próximo da energia que senti nessa experiência…

Segue:
Depois Que O Ilê Passar РVirginia Rodrigues by saulocalderon
Quilombo Projetivo

Fui dormir sem fazer técnica alguma e mais cedo do que o normal, por volta das 21h00 h, porém essa projeção aconteceu durante a madrugada.

Percebi-me consciente numa floresta fechada. Estava escuro e sentia uma energia pulsante no peito. Além da sensação forte, uma questão: o que estava fazendo ali? A sensação espiritual fazia-me sentir algum trabalho pela frente. Estava aparentemente sozinho , mas muito sutilmente percebia a presença de algum mentor,  e não era uma energia comum.
Ao longe vi uma cabana feita de sapê e segui intuitivamente em sua direção.
Antes de entrar recebi espiritualmente a sugestão de que era um tipo de senzala ou espíritos que estavam presos. Na frente vi um espírito mal encarado, me olhando feio. Ameaçou me atacar, mas algo o fez ficar com medo e pular na escuridão, correndo. Não sei o que ele viu, pois olhou atrás de mim, como se algo me acompanhasse e o olhar de desespero dele foi claro e então tive certeza: não estava sozinho ali. Ele parecia um tipo de vigia cuidando para que ninguém fugisse.

Entrei naquela casa.  Ainda sentia o cheiro de suor, o cheiro de casa velha. Era uma energia tão intensa que parecia que havia voltado no tempo.  Haviam vários negros acorrentados, meio que adormecidos, a maioria parecia dormir profundamente. Alguns reclamavam em silêncio. Não pude deixar também de observar o rosto de sofrimento de um dos negros, era tão forte seu semblante que fui a sua direção. Abaixei-me para pegar em sua mão, mas ele puxou imediatamente. E falei: – Calma, irmão, eu só vim tirar essas correntes. Ele respondeu:
– Não quero ajuda de branco, você vai me levar para outro lugar ruim, eu sei!
Por um momento me vi nele, era como se eu já tivesse passado por aquela situação, senti todo o  medo dele, toda a sua revolta, como se não tivesse escolha e aceitasse a vida ali sem analisar muito, um escravo, enfim.

Abaixei-me mais ainda, ficando sentado no chão praticamente e falei: – não, irmão. Deus não desampara seus filhos, está livre, olha! Falei isso enquanto puxava a corrente e ela se quebrava em minhas mãos. Certamente os mentores haviam feito isso de alguma forma. Ele olhou para as mãos e perguntou: Mas para onde vou? Não adianta fugir, eles nos caçam, moço, eles nos pegam e vou apanhar depois e não quero morrer! Eu respondi: – Não irá apanhar e nem morrer, a morte não existe.  Comecei a mandar energias de paz para ele, mas senti no meu corpo espiritual uma energia estranha. Era um grupo de espíritos ligados a eles, eram os mentores daqueles espíritos ali.  Uma energia forte. Meus olhos se encheram de lágrimas quando ouvi um canto numa língua que não entendia, mas sabia o que falavam. Era um canto de revolta, mas havia muita fé. O canto levava a lembrança dos tempos em que eles  trabalhavam sem opção, sem poder falar nada. O canto trazia saudade, trazia a lembrança da esperança da liberdade. Aquele canto parecia sair através da energia que eu exteriorizava em direção a eles. E aquela energia parecia ter entrado no  ambiente através de mim,  mas eu  não fazia nada, eram eles ( os mentores) que faziam. Um canto negro, um canto forte, e mesmo que eu tentasse  explicar eu não conseguiria de maneira alguma.

Aquele rapaz negro tentou se ajoelhar em minha direção, mas não deixei , explicando que não era eu quem fazia aquilo (pois ele só via a mim). Eram os amigos espirituais deles que tinham vindo buscá-los. Muitos nessa hora começaram a se aproximar de mim, agora já não viam mais um branco que ameaçava , sentiam um chamado de confiança e todos pediam ajuda, como se suas orações tivessem sido ouvidas. E alguns pareciam cantar também, aquele canto espiritual parecia estar sendo ouvido por toda a senzala.

A energia foi tanta que perdi a consciência  e não lembro mais de nada além do que relatei.
Acordei muito tempo depois com a lembrança bem pequena e fui lembrando devagar.

Quando sentei para escrever o relato, senti uma energia forte no meu corpo, fiquei arrepiado por  vários minutos.

Que Deus ampare esse povo lindo!

Que essa energia que senti envolva todos os corações. Viva o povo que passou por isso!
Viva nossos espíritos, pois somos hoje os negros de ontem! E ainda somos eles, pois eu me vi lá, senti a corrente no pulso, senti o cheiro da terra, senti o suor escorrendo na pele, senti a injustiça na alma!

Apesar de estar em Recife, sinto uma saudade imensa da Bahia. Que Deus nos ilumine, e que isso nos faça entender que o preconceito não é nada mais que negar a nossa própria existência, pois somos nós os negros de ontem, e somos ainda negros, pois é um passado que ainda existe nos cantos espirituais do Brasil. Há um canto de revolta ainda em cada gueto, é só elevar o coração e o amor que entraremos em contato com essa energia e perceberemos o quanto podemos ser úteis a nós mesmos.

Somos pequenos para um trabalho desse porte, agradeço a Deus a oportunidade de ser útil a mim mesmo. Queria poder cantar o que ouvi: um canto tão lindo que acho impossível sentir novamente algo desse porte.

Que Deus nos abençoe!

Saulo Calderon

Comments 3

  1. Lindo relato, uma experiência fascinante e cheia de amor ao próximo, sem preconceitos.

    Obrigado por compartilhar a experiencia

  2. Relato muito envolvente … mexe coma gente, pois é nossa origem, pelo menos sei que é minha, sei de meus antepassados e também amo esse povo.
    Saravá !!!

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