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Martyn Stubbs

Uma religião sem Deus?

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Uma religião sem Deus?

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Abordaremos, a seguir, um dos temas mais abstratos do Budismo: o conceito de Deus. Seria o Budismo ateu ou, quem sabe, agnóstico? Tentaremos ser claros, simples e sucintos, pois a questão envolve uma filosofia à primeira vista complexa e profunda e, por isso mesmo, tão mal compreendida entre os não iniciados.

Acusa-se, freqüentemente, o Budismo de desconhecer a existência de Deus, ou de, no mínimo, não encarar de frente um assunto tão transcendental. Afinal, todas as religiões têm seu Deus: Allah no Islamismo, o Deus do Cristianismo, Jeová no Judaísmo, Brahma no Brahmanismo e assim por diante. E o Budismo, como considera a realidade de um Ser Supremo que regeria a vida, o destino e daria sentido ao Universo? Ou simplesmente se omitiria, conforme crença tão difundida?

Para responder essas perguntas, precisamos ter uma noção do que seja a Vacuidade (Sunyata), um dos pilares básicos do Budismo em todas suas manifestações. Um dos mais famosos Sutras (compêndios com os sermões de Buddha), o Mahaprajnaparamita-Hridaya, diz que a Vacuidade, ou o Vazio, é o fundamento que dá base à existência de todas as coisas, em sua assertiva tão conhecida: "A Forma é o Vazio, o Vazio é a Forma". O Vazio parece servir de fundamento à natureza não-substancial de todos os fenômenos. Mas o que vem a ser o Vazio? É a constatação de que todas as coisas compostas são vazias e impermanentes, impessoais e dolorosas. Isto vale, também, para nós, seres humanos. A Vacuidade, no ramo Hinayana, aplica-se apenas à "pessoa". No Mahayana, que inclui o Zen-Budismo, estende-se a tudo o que existe no mundo fenomênico. Este é sempre fugaz, como o é o Universo como um todo. Nada do que existe tem uma natureza perene e estável. Do Vazio origina-se e brota, a cada instante, todo o mundo à nossa volta, como as partículas virtuais e as anti-partículas também brotam a cada momento, para, logo a seguir, desaparecerem no vácuo do espaço cósmico. A Iluminação (Bodhi ou Satori), a suprema experiência budista, acontece quando tomamos conhecimento íntimo e súbito, em um insight, dessa noção de vazio, não-perenidade e, simultaneamente, de unicidade. Nela, o homem acorda para a Vacuidade de si mesmo e do Cosmos, vivendo o inacessível, o além do ser e do não-ser, onde o Absoluto e o Relativo não são senão um só fenômeno, intimamente coerente e uno. O temporal e o efêmero são características intrínsecas ao Universo, sob o contraponto necessário do Supremo, que, dialeticamente, lhes dá sentido e coerência. A noção completa de Vacuidade foi herdada pelo Zen-Budismo, em parte, a partir do Taoísmo e seu princípio do Nada (Wu).

Um conceito budista similar ao conceito de Deus existe e é bem expresso, por exemplo, pela idéia de Bhutatathata (a qüididade do ser, "suchness", em inglês). Bhutatathata é tão somente um princípio que remete a algo abstrato, inominável, impessoal, indizível e inefável, magistralmente traduzido pela idéia-chave da Vacuidade. Trata-se da Realidade Última, manifesta no mundo fenomênico, com suas aparências e formas que nascem, transmutam-se e desaparecem. Bhutathata é impessoal, imutável e eterno. É um conceito muito forte e real (aliás, a realidade final de tudo), não propriamente uma personificação expressa. É o Absoluto ou a Realidade Suprema (Tathata). No grande ramo budista Mahayana, equivaleria, aproximadamente, à mais avançada idéia cristã de Deus. Na Escola Madhyamika, o Vazio é idêntico ao Absoluto, o Princípio Último. Realizar o Vazio é atingir a libertação purificadora, a Iluminação. O Maha-Sunyata Sutra é um sermão de Buddha a respeito da Vacuidade.

Em suma, o mundo dos fenômenos e das aparências, o "nosso mundo", confunde-se intimamente com a idéia filosoficamente necessária do Absoluto, como se fossem as duas faces de uma mesma moeda. O Budismo nunca usou expressamente uma denominação para Deus. Mas o conceito de um Supremo existe. O célebre filósofo budista Nagarjuna, em "As Oito Negações", afirmou: "nem destruição nem criação; nem aniquilamento nem eternidade; nem unidade nem multiplicidade; nem chegada nem partida". A síntese entre a Vacuidade e o mundo fenomênico é, pois, o verdadeiro Caminho. Bhutatathata é o Princípio imutável e eterno.

O Budismo não é uma doutrina nihilista ou, como se julga, panteísta O Absoluto não está em tudo. Ele é tudo, manifestado através da multiplicidade das aparências enganosas, efêmeras e passageiras. O Buddha Shakyamuni disse certa vez: "Sois Buddha e não sabeis". Com isso quis significar que a Iluminação é acessível a todos. E mais: que temos, dentro de nós, uma grandeza que desconhecemos e raramente utilizamos. Buddha pouco se referiu à idéia de um Deus, expressamente falando, talvez por julgá-la excessivamente transcendental para nós, embora, de certa maneira, tão próxima. Mas deixou as pistas, mesmo porque a noção do divino é arquetipicamente intrínseca a todos nós humanos e, principalmente, porque mais vale a compreensão pela própria prática e experiência do que mil palavras, por mais sábias que sejam.

De maneira diferente da maioria das religiões (sem julgamento de mérito), o Budismo não cria um Deus a priori. Ele trabalha filosoficamente a nossa realidade e a une indissoluvelmente à Realidade Última dos Fenômenos e conclui que sem esta não haveria explicação e fundamento para a primeira. Na realidade, o Supremo manifesta-se pelo mundo dos fenômenos, por mais efêmeros, mutáveis, sem substância e vazios que sejam ou que aparentem ser.

*André Medeiros é Astrônomo e estudioso de Budismo desde 1990, na Escola Sotô de Zen-Budismo

Fonte: http://www.casadobruxo.com.br/textos/umareligiao.htm

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No fim das contas não é realmente definido como uma religião sem um Deus... apenas está vendo Ele como realmente é... onipotente, oniciente e onipresente... criador de tudo e todas as coisas, Aquele que está além de tudo e todas as coisas, pois Ele criou tudo e todas as coisas, Ele é tudo e todas as coisas (é a hora que a mente dá um nó... rs). Incrível que apesar das religiões ocidentais ensinarem a onipotência, onisciência e onipresença Dele ainda consigam enfiar na cabeça do povo que Deus é unilateral, e ainda O definem como um “ser”.

Enfim... a hora da iniciação sempre chega para todos, cada um no seu tempo.

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