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teste de edição 2

 

Roger Bottini Paranhos

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Roger Bottini Paranhos nasceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, onde reside desde 1969. Formado em Administração de Empresas pela PUC e pós-graduado em Sistemas de Informação e Telemática pela Universidade Federal, trabalha no Banco do Estado do Rio Grande do Sul como analista de sistemas.
É médium desde a infância, quando passou a perceber a presença de espíritos necessitados e, posteriormente, de instrutores da Espiritualidade que o convocaram para o trabalho que ora realiza através da divulgação das verdades imortais. Atualmente dedica-se em especial a missão de promover e divulgar a visão espiritual do terceiro milênio: o “Universalismo Crístico”, que é justamente o tema central de seu livro de mesmo título.

Fonte: Editora do Conhecimento.

......................................................................

Bom, pessoal, o Roger tem um projeto próprio, mais amplo, no qual a projeção astral ocupou uma pequena parte inicial. Não é atualmente um autor dedicado ao tema da projeção, mas é um projetor. Eu já tinha criado um tópico no setor de dicas de livros, para recomendar os livros HISTORICOS dele, que são narrativas escritas a partir de memórias de vidas passadas.

 

O foco do trabalho histórico dele é mostrar como o grupo que veio instalar o cristianismo na terra passou por diversas etapas, vivendo seus dramas encarnando sempre próximos uns dos outros, e desenrolando seus dramas. São uma ótima leitura para quem gosta de temas históricos e enredos cármicos. Mas a recomendaçao dessa parte do trabalho dele está lá no fórum de dica de livros, aqui eu vou postar apenas sobre o livro dele que contém relatos de projeções astrais.

 

Ele não ensina projeçao, ele ensina conceitos de espiritualidade, como nos livros espíritas, mas no livro Sob o signo de Aquário ele faz isso através de narrativas de projeções, que podem ajudar a entender algumas coisas do ponto de vista do projetor que se projeta para trabalhar.

Vou postar apenas alguns trechos selecionados  desse livro, para instigá-los a ler o livro todo. Não creio que exista em pdf.

.....

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Prelúdio

 

.... Todas as noites, quando Hermes vinha me buscar para o trabalho espiritual, retirando-me do corpo físico enquanto este repousava, era-me apresentado um templo com enormes portas trabalhadas em madeira de carvalho. Na primeira vez em que vi esse templo, perguntei a ele do que se tratava e o mentor amigo respondeu: “Estas portas simbolizam o novo livro que iremos redigir em conjunto. Porém, esse trabalho não é para agora, mas para após a publicação de A História de um AnjoW No dia em que as vir abertas, aí iniciará um novo e belo trabalho de expansão do conhecimento que somente os livros podem propiciar.”

Longos meses se passaram, até que, em certa noite, ao sair do torpor inicial resultante da saída consciente do meu espírito do corpo, percebi uma fantástica luz dourada a irradiar-se da janela do meu quarto. Aproximei-me e a claridade diminuiu de intensidade. Pude, então, observar que a luz saía do interior do templo que eu via todas as noites. Agora as imensas portas de carvalho estavam abertas. Virei-me para Hermes e perguntei: “Agora vamos iniciar o novo trabalho?” O nobre mentor fez ape­nas um gesto afirmativo com a cabeça irradiando em seu rosto a alegria dos anjos. Retribuí o sorriso e fiquei apenas aguardando as suas sábias instruções ....

 

 

A Nova Era

 

Era uma hora e cinqüenta e três minutos da madrugada, quando comecei a sentir maravilhosa sensação após entregar- me ao sono. Este era um sinal, ao qual me acostumei, de que Hermes estaria libertando meu espírito da matéria e assim eu poderia aprender e auxiliar, dentro de minhas limitações, no mundo espiritual.

Logo pude perceber as iluminadas mãos do mentor amigo trabalhando o meu chakra frontal para aguçar minha visão no plano espiritual. Eu já estava sentado aos pés da cama enquanto meu corpo permanecia em decúbito ventral. Hermes continuava efetuando passes energéticos longitudinais em meu corpo espiritual. Pouco a pouco, fui me integrando plenamente àVida Maior. Ao estar senhor de mim no plano espiritual, aper­tei as mãos de Hermes em sinal de reconhecimento pelo auxílio e atenção que ele sempre me dedicou.

Imediatamente, começamos a mentalizar a cidade astral Império do Amor Universal. Deveríamos volitar urgentemen­te para lá, pois às duas horas da madrugada se iniciaria uma importante palestra na Casa da Sabedoria que eu não poderia perder de forma alguma. O assunto que seria exposto deveria fazer parte deste trabalho, portanto, volitamos instantaneamen­te, dispensando o método tradicional de deslocamento no espa­ço, onde pode-se observar as belezas da natureza e, também, o viajor pode ir se acostumando gradualmente às mudanças vibratórias do ambiente entre o local de partida e de destino.

Ao chegarmos à Cidade-Luz, como também é conhecida essa comunidade localizada nas mais altas esferas espirituais da Terra, necessitei, mais uma vez, do auxílio de Hermes para “enquadrar-me” dentro da sutil vibração daquela cidade. Esta energia espiritual é fruto dos habitantes que ali possuem o direi­to de viver devido a grandes realizações no campo da evolução espiritual. Como ainda meu espírito não possui este direito, pre­cisei ser auxiliado para poder lá permanecer como visitante em tarefa de esclarecimento aos encarnados, em nome de Jesus.

 

(...)

 

Ingressamos rapidamente no Templo da Sabedoria. Estávamos, literalmente, correndo pelos amplos corredores da belíssima casa de estudo e aprendizado. Deslizávamos sobre o piso de mármore carrara e, apesar da pressa, deslumbrava-me com as majestosas colunas de cristal das mais diversas cores.

Hermes repreendeu-me, pois iríamos nos atrasar, o que para espíritos graduados como o mentor amigo é algo imper­doável, devido ao respeito que devemos dedicar àqueles que irão dirigir o trabalho de esclarecimento ao qual fomos convi­dados.

Procurando quebrar a tensão, brinquei, dizendo:

 

                 Na próxima vez, me desliga do corpo físico mais cedo!

 

Hermes sorriu e disse:

 

                 E tu, vá dormir mais cedo!

 

Ambos sorrimos, enquanto abríamos as amplas portas do auditório onde seria realizada a palestra do irmão Glaucus, à qual fôramos convidados. Faltava um minuto para as duas horas da madrugada. Glaucus estava conversando com um assistente, enquanto eu e Hermes procurávamos um lugar para sentar. O auditório estava praticamente lotado. Havia uns tre­zentos colaboradores; muitos encarnados como eu.

 

(..)

 

Após o encerramento da prece de Glaucus, pude observar as pétalas de rosas astrais caírem sobre nossas cabeças tra­zendo-nos indizível bem-estar. A luz fazia-se presente através de poderosas energias que surgiam do alto da abóbada, onde encontrava-se o teto envidraçado. Uma luz branca iluminava- nos intensamente. Olhei ao redor, para os meus companhei­ros que estavam ali presentes para a palestra, e percebi que estavam todos flutuando e extasiados com o momento. Notei, também, que eles estavam um tanto atordoados, como se esti­vessem em estranho estado de hipnose. Perguntei, então, a Her­mes o motivo deles estarem assim.

 

                 Roger, estamos em uma esfera espiritual de sonhos. Todos estão aqui vivendo um padrão espiritual muito além do que a pobre Terra pode oferecer no momento. Muitos, tam­bém, estão ainda despreparados para este momento que exige um profundo exercício mediúnico que só se obtém com muita disciplina e adestramento mental. Tu estás obtendo total cons­ciência do que transcorre neste plano de luz, devido aos diver­sos exercícios que realizamos e, também, pela importância do trabalho que temos a realizar. O mundo espiritual está te assessorando de uma forma fantástica, emprestando-te recur­sos que ainda não possuis por teu próprio mérito. Isso ocorre exclusivamente para a realização deste trabalho.

                 Isso não irá prejudicar o trabalho do mundo espiritual? perguntei. — Muitos aqui não irão carregar consigo para o corpo físico o conhecimento que seus espíritos receberão neste momento. Não é assim?

 

                 Roger, tranqüiliza-te! Não existem falhas ou enganos no trabalho divino. Estes irmãos estarão, em breve, ensinan­do a todos no mundo material sobre aquilo que aqui ouvirão. Não lembrarão os detalhes desta noite, mas buscarão...

 

teste

 

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Uma lição de caridade

 

No dia do nosso próximo encontro na dimensão espiritual, eu estava resolvendo alguns problemas particulares, durante a minha hora de almoço, quando vi um pequeno menino sen­tado na calçada. Ele parecia estar sentindo fome. Seus olhos estavam parados, voltados para pequenas formigas que cami­nhavam pelo meio de seus pés.

Eu senti um impulso espiritual para comprar um pastel ou um prato de comida para aquele menino. Mas eu estava apres­sado! Mesmo tendo liberdade para chegar atrasado ao meu serviço, resolvi esquecer a pequena criança e corri para o banco onde trabalho. Eu acreditava estar atrasado e não poderia per­der tempo naquele momento. Este foi o meu grande erro!

Durante a noite, somente Hermes apareceu. He estava com uma expressão séria e indiferente. O sábio amigo apenas disse-me:

 

              Hoje não teremos tempo para atender-te! Necessitamos ' trabalhar com colaboradores que entendam o significado da palavra caridade. Aproveita a noite livre para a sábia reflexão sobre os sucessos do teu dia de hoje!

 

Eu baixei a cabeça e a imagem do menino surgiu em minha mente com a velocidade de um raio. Compreendi as pala­vras de Hermes e, por ver nelas plena razão, mantive-me de cabeça baixa, com os olhos rasos de lágrimas e com o coração repleto de vergonha e dor.

Só levantei a cabeça minutos após, quando eu tive a certeza de que o espectro do nobre espírito já havia se retirado. Segui o seu sábio conselho e refleti sobre a caridade naquela noite. Durante esta reflexão, lembrei-me da história do frei Bonaventura, que sempre me cativou. Neste dia, compreendi esta história na prática, pois antes, a conhecia apenas em teoria.

.......................

 

Encontro com Jesus

 

Em uma pequena comunidade medieval da Europa, vivia um monge que possuía um coração generoso. Ele auxiliava a todas as pessoas de seu povoado. Nas primeiras horas do dia, o frei Bonaventura já se encontrava às portas de seu mosteiro para auxiliar, dentro de suas possibilidades, as pessoas caren­tes do corpo e do espírito.

O caridoso frei atendia desde problemas materiais, como a necessidade de alimento e vestuário, até complexos problemas existenciais. Ele era um grande psicólogo dos dilemas huma­nos. Muitos casamentos e relações familiares foram salvas pelas palavras meigas e sábias do generoso servo de Cristo.

O seu trabalho era dedicar-se ao próximo sem distinguir o rico do pobre, o suserano do vassalo, ou a classe real da plebe. Bonaventura compreendia que a verdadeira caridade não espe­ra nada em troca e não escolhe os beneficiados. Ela simples­mente age por agir!

As pessoas de seu povoado diziam ser Bonaventura um anjo ou um santo de Deus em missão na Terra, porque ele nada fazia para si, somente para os outros. E quando lhe pergunta­vam o que ele gostaria de receber em contrapartida por toda a sua generosidade, ele apenas respondia que já possuía tudo o que desejava através das bênçãos de Jesus.

Mas, na verdade, o amigo dos necessitados tinha um desejo que guardava oculto em seu coração. Ele desejava que Jesus lhe aparecesse em espírito para que ambos pudessem conversar. Bonaventura sonhava com a oportunidade de esclarecer, junto ao Mestre, as suas dúvidas sobre os ensinamentos do Evange­lho e poder confraternizar com aquele que era o seu exemplo de vida e meta a atingir em sua dedicada existência.

Os anos se passavam e o bom frade trabalhava incessante­mente, acalentando em seu coração a realização de seu sonho, sempre colocando em primeiro lugar, o amor e o espírito de caridade aos seus semelhantes.

Até que, certo dia, após acordar e preparar-se para atender aos necessitados, ele dirigiu-se ao quarto para pegar seus ócu­los e teve uma adorável surpresa. Lá, encontrou o governador espiritual da Terra, Jesus.

Em profunda emoção, o frei Bonaventura disse:

 

                 Mestre, tu atendes te ao meu pedido!

 

Os olhos do abnegado monge estavam marejados de lágri­mas, fruto da forte emoção, quando ele ouviu algumas batidas agitadas em sua porta.

O monge ficou confuso sem saber o que fazer, enquanto Jesus o fitava com um olhar misterioso. Passados alguns pou­cos segundos, o monge colocou as mãos no rosto e disse:

 

                 Mestre, me desculpa, mas não posso deixar de atender a minha gente!

 

Bonaventura girou sobre os calcanhares e correu até a porta sem olhar para atrás. E naquele dia, estendeu-se em sua porta uma longa fila de necessitados que reclamavam o seu auxílio para assuntos urgentes que somente o bom padre pode­ria solucionar.

Ás pessoas estranhavam o abatimento de Bonaventura e lhe perguntavam sobre o que havia ocorrido. Ele apenas respon­dia que tudo estava bem e que estava apenas com um pequeno resfriado.

0 dia passou rápido. E quando a última pessoa foi atendi­da, a noite já ia alta. Cansado e triste, ele retomou ao quarto para repousar. Ao trespassar a soleira da porta, ele teve uma divina surpresa. Jesus estava lá, em seu quarto, sentado aos pés da cama. O frei, irradiante de alegria, perguntou ao sublime rabi da Galiléia.

 

                 Mestre, o senhor me esperou?

 

E Jesus, com seus vivos olhos cor de amêndoa, respondeu irradiando sabedoria e amor:

 

                 Se tu tivesses ficado, eu teria ido embora!

......

 

 

A intensidade de nosso espírito de caridade é diretamente proporcional à distância a que estamos de Cristo. Quanto mais caridade houver em nossos corações, mais próximos estaremos da luz de nosso Irmão Maior e de nossos espíritos protetores.

Nós procuramos a cativante figura de Jesus em livros, teo­rias e orações, mas a forma mais plena de sentirmos a sua pre­sença está na prática da caridade, que ele exemplificou em sua jornada messiânica pela Terra, há dois mil anos atrás.

Se acreditarmos ser possível conquistar evolução espiri­tual somente através da teoria, nos isolando do mundo e de nos­sos semelhantes, estaremos nos iludindo. É melhor pararmos a nossa marcha em busca da luz para avaliarmos as nossas vidas e atitudes perante ela. E se concluirmos que a caridade, tanto material como espiritual, é dispensável, então esqueçamos a busca do crescimento espiritual, porque esta encarnação estará perdida!

A caridade material corresponde a sentirmos, no fundo da alma, que as nossas necessidades e anseios são os mesmos de nossos irmãos. E que esses sentimentos os fazem sofrer assim como a nós. A dor e a aflição de ver seus filhos passando fome e nudez é a mesma sensação que teríamos se algo semelhante nos acontecesse. E que devemos, de forma desinteressada, auxi­liar a amenizar as necessidades e aflições destes irmãos para dignificar as suas vidas.

 

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A marca dos exilados

 

Havia se passado quase um mês desde nosso último encon­tro. Conforme Hermes havia prometido, estávamos iniciando outros estudos, diferentes dos que realizamos nos capítulos anteriores.

Naquela noite, caminhávamos por largas ruas de uma localidade do mundo espiritual desconhecida para mim. Era fácil constatar que nos dirigíamos para zonas de trevas da Vida Maior. As rajadas de vento frio quase me derrubavam. Os nobres amigos espirituais nada sentiam, enquanto eu experimentava o gelo penetrar em minhas entranhas. O forte vento me descabela- va e rachava meus lábios. Mesmo sendo gaúcho e acostumado com as invernias do sul do Brasil, sentia-me alquebrado com o rigoroso clima daquele sítio.

Crystal, percebendo a minha aflição, solicitou a Shien aco­bertar-me do vento com sua presença à minha frente, pois, em poucos minutos, estaríamos protegidos. O corpo de grandes dimensões de Shien protegia-me do causticante frio, enquan­to eu observava as tochas iluminando a rua de chão batido à nossa frente. Alguns espíritos gritões passavam céleres ao nosso lado tentando assustar-nos com suas ameaças. Envolvi­dos em casacos rasgados e sujos, olhavam-nos com desprezo, como se fossem traficantes de drogas vadiando nas esquinas.

Antes que eu desse por mim, Hermes girou sobre os cal­canhares e seguiu por uma ruela estreita, onde entramos em uma caverna. Caminhamos trinta passos agachados, pois o teto era baixo demais. Shien, devido a sua altura, andava pratica­mente “de cócoras”. O vento abrandou, devido a não estarmos mais em um local descampado. Agora, o gelo mortificante do ambiente demonstrava a região em que estávamos peregrinan­do. Os uivos de animais e os gritos lancinantes dos desencarna­dos davam-me a idéia do caráter daquele local.

Após sairmos do pequeno túnel, ingressamos em galerias intermináveis, iluminadas por tochas presas à parede. Nesses extensos corredores, escorria, constantemente, umidade pelas paredes e estavam impregnadas, em várias partes, de limo e cogumelos. O local parecia-se com esgotos subterrâneos de gran­des cidades, pois no centro do estreito corredor corria um fio de água turva, muito semelhante a água de esgoto.

(...)

Após caminharmos vinte minutos pela galeria, começamos a perceber a presença de espíritos sofredores deitados ou sen­tados no solo lamacento, onde corria a água de esgoto. Eles gemiam e estendiam os braços esmolando atenção e auxílio.

O nobre irmão Hermes demonstrava tristeza e angústia vendo aqueles farrapos espirituais pedindo clemência. Mesmo senhor de grande sabedoria, que lhe permite compreender as leis que aprisionam as criaturas àquela situação, ele chorou. Eu corri para perto do querido amigo e perguntei-lhe:

 

—                 Hermes, por que choras? Compreendes a lei de ação e reação como poucos. Tu sabes que estes irmãos apenas colhem o que plantaram!

O nobre amigo voltou-se para mim e disse com a voz embargada:

 

—                 Roger, já paraste para olhar para estas criaturas? Despe- te, por um segundo que seja, do teu espírito jornalístico!

 

O espírito iluminado levantou-se e foi atender outros necessitados. Após acompanhar, por alguns segundos, os seus passos, voltei-me para a irmã falida que ele acompanhava com desvelo. Ela fitava-me com olhos tristes e desesperançosos. Seus grandes olhos castanhos estavam inchados de tanto cho­rar. Em seus braços, úlceras cobertas de pus denotavam a sua condição espiritual.

Não consegui sustentar o olhar daquela irmã, que estava recostada contra a parede com o corpo disforme. O frio atroz daquela laje, onde repousava o seu corpo espiritual, deveria causar-lhe angustiante sofrimento, já que ela vestia apenas uma surrada camisola de verão completamente embarrada, assim como seus cabelos.

 

—                 Perdoa-me, anjo do Senhor! Eu lamento não ter ouvido os ensinamentos de luz que as religiões ensinavam no mundo. Dá-me outra chance, por misericórdia!

Ao ouvir aquelas palavras, levantei com velocidade a cabe­ça e mirei-a nos olhos dizendo:

 

—                 Não digas isso! Eu não sou um anjo. — E, virando-me de perfil, mostrei o cordão prateado que me identificava como encarnado em expedição no mundo dos espíritos. — Vê! Eu possuo o laço que liga o espírito ao corpo. Eu sou apenas um espírito encarnado em estudo no plano espiritual.

Ela esboçou um cansado sorriso e disse:

 

—                 Mesmo assim, reza por mim e lembra de pedir por minha alma aos superiores que te trouxeram até aqui.

 

Os meus olhos ficaram marejados de lágrimas. Um nó trancou-me as palavras que lutavam para fluir pela garganta. Instintivamente, abracei a pobre menina, que deveria ter vinte e cinco anos na data de seu desencarne. As características de seu corpo espiritual demonstravam que ela havia morrido por excesso no uso de drogas.

Levantei-me sem olhar para ela, pois eu não suportaria ver, novamente, aquele olhar suplicante. Eu já estava a alguns passos de distância, quando ela disse em alta voz para que eu ouvisse:

 

—                 Eu daria tudo para ser uma boa alma de luz como tu!

 

Eu estaquei o passo, enquanto ouvia as palavras que atin­giram como raios os meus ouvidos. E pensei por alguns ins­tantes: “será que eu sou um espírito liberto de meus erros”? E as minhas atitudes? Elas me elegem para manter-me na Terra para o terceiro milênio? Do que vale a sabedoria espiritual e a alta capacidade mediúnica, se possuo tão pequeno espírito de caridade? Será que esta menina estaria fazendo uma boa troca, desejando ser um espírito como eu? Ou eu é que estaria junto a ela naquela laje suja após o meu desencarne? Várias questões fluíram na minha mente naquele átimo de segundo.

Eu recuperei a razão e continuei a me distanciar. Ela gri­tou um “adeus" sincero e agradecido. Emocionado com suas intenções, eu apenas disse, estendendo a mão sem virar-me: “Fica com Deus!” Naquele instante, luzes maravilhosas passa­ram voando sobre a minha cabeça e deitaram sobre o corpo chagado da moça. Eu virei-me, impressionado, para contem­plar aquele fenômeno do mundo espiritual, e a vi envolvida em um bálsamo de luz dizendo:

 

—                 Deus te pague por este momento de calor e conforto.

 

Eu sorri, feliz com o meu gesto espontâneo, e segui cami­nhada ao encontro dos meus protetores. Aproximando-me de Hermes, contei-lhe o fato e pedi a sua soberana intervenção para providenciarmos a reencamação daquela moça.

Hermes olhou-me com um olhar de imensa compaixão e disse-me:

 

—                 Infelizmente, ela possui a “marca dos exilados”. Não percebeste, pois a tua visão não está concentrada na busca da marca que identifica aqueles que já tiveram a sua última chan­ce na Terra.

 

—                 Mas que marca é esta que não vejo? — perguntei.

(...)

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O impacto das drogas

 

(...)Mudando de assunto, perguntei ao nobre mentor:

 

              —     Hermes, conforme te pedi, poderíamos estudar o impac­to das drogas nos homens e nos espíritos livres da matéria? Nas últimas semanas, eu tenho me impressionado com o aumento do consumo de drogas entre os jovens! Em Porto Alegre, inclusive, existem certos parques onde as drogas são consumidas à luz do dia e à vista de todos. Alguns pontos dos parques são classificados de “fumódromos”. Além disso, existem grupos de rap e reportagens de revistas conceituadas promovendo e ques­tionando a legalidade das drogas!

Hermes baixou a cabeça, meditando sobre as minhas pala­vras. Ao terminar minha exposição, o nobre amigo mirou-me nos olhos e disse:

 

            —       Como seria bom se todos os encarnados pudessem ver o que tu enxergas, através da mediunidade! Eu compreendo que a tua maior aflição está em ver os desencarnados viciados obsedando os jovens, em todo lugar, na busca pelo vício degradante e, a princípio, nada podes fazer.

 

Eu olhei para o céu estrelado daquela noite com os olhos úmidos, enquanto minha mente relembrava as diversas vezes em que vi, com espanto, jovens em tenra idade com espíritos em avançado estado de degradação montados em suas costas, como se fossem jóqueis sobre cavalos.

Enquanto os desavisados jovens “curtem" o delírio que o consumo de drogas propicia, verdadeiros vampiros sugam-lhes a essência da droga que está sendo consumida. E o pior está no vínculo criado! Após satisfeito em seu desejo incontrolável, este espírito escravizado também no vício, liga-se, indefinidamente, à sua vítima para saciar mais e mais o seu desregramento, esta­belecendo um profundo laço obsessivo.

(...).

 

Em poucos minutos, Hermes apresentou-me os jovens que seriam estudados. Eram dois rapazes e uma moça que pos­suíam em torno de vinte anos. Eles estavam bebendo e fuman­do; os rapazes recostados a uma mesa de bar, enquanto a moça dançava alegre com um cigarro na mão. Junto a eles, estavam oito espíritos viciados. Dois deles estavam sendo carregados em caixões toscos, pois estavam em estado de transe devido ao desespero em consumir drogas.

Hermes virou-se para mim e disse:

                  —   As pessoas acreditam que após a morte do corpo, o espí­rito está liberto dos vícios que cultivou durante a vida. Estes espíritos são todos drogados que desencarnaram vitimados por sua própria imprudência. Alguns desencarnaram por overdose, outros envolvidos em crimes para obter dinheiro para adquirir as drogas.

 

Lembra-te sempre das palavras do Grande Mestre a Pedro: “tudo que ligares na Terra será ligado no Céu; e tudo que desligares na Terra será desligado no Céu”. Agora, eles estão no mundo dos espíritos com o desejo quintuplicado em relação ao seu vício e nada podem fazer para saciá-lo, a não ser ligar-se àqueles que estão na vida física e sugar a essência etérea das drogas consumidas pelos encarnados.

 

Enquanto eu analisava o estado dos espíritos que pare­ciam múmias, conduzidas pelos demais, Hermes disse-me:

           

            —      Estes dois já não se encontram mais em condição de cor­rer atrás do vício. Os seus amigos acreditam que eles ingressarão em uma “segunda morte” caso não sejam saciados. Em verdade, eles já se encontram em estado cataléptico. Estes dois perderam o governo sobre si agora, só lhes resta serem conduzidos para clínicas do plano espiritual, onde ficarão em estado de coma induzido por tempo indeterminado.

           —       E quem é aquele espírito agitado que, constantemente, acompanha o estado de uma das múmias?

 

          —     Roger, aqueles dois são irmãos que desencarnaram jun­tos por overdose. Este, que acompanha o estado do espírito em coma, é o seu irmão mais velho que iniciou o jovem nas drogas. Ele, agora, se penitencia por ter desgraçado a vida do irmão que está sofrendo as piores conseqüências.

 

Mal Hermes terminou suas palavras e Anderson dirigiu-se a um dos rapazes que bebiam recostados à mesa do bar e, com violência, deu vários socos com a parte inferior do punho na cabeça e no peito do jovem rapaz, dizendo:

 

           —     Maldito! Maldito! Vai comprar a cocaína de uma vez. O meu irmão está morrendo. Eu te desgraçarei a vida se o meu irmão ingressar nesta “segunda morte”!

Naquele instante, Josué começou a tossir forte sem parar. A cena foi tão imprevista que a menina que estava com eles gritou, em meio à música estridente:

 

         —       O que é isto Jô, já estás te engasgando com a bebida?!

Os três riram e Josué respondeu:

 

           —     Eu acho que está na hora de eu cheirar um pó. Esta bebida não está me fazendo bem. Eu estou com tontura e dor de cabeça.

 

            —     ê, Roger — atalhou Hermes — a tosse e a dor de cabe­ça são impressões causadas pelos socos que Anderson desferiu na cabeça e no peito deste rapaz.

Logo em seguida, os três saíram do bar com a sua corte de obsessores a segui-los. Era uma cena fúnebre! Os três jovens alheios aos espíritos que os acompanhavam. Junto a eles, seis criaturas com corpos deformados, como em filmes de terror, com roupas negras rasgadas, conduzindo dois esquifes com as múmias em avançado estado de decomposição e rigidez cadavérica.

Anderson esfregava as mãos, ansioso, enquanto acom­panhava o estado de seu irmão no caixão que o conduzia. Algumas vezes, ele aproximava-se mais dos encarnados e os empurrava e socava nas costas, dizendo:

 

         —      Andem, andem seus molóides!

 

Os demais obsessores variávam muito em aspecto e estado de consciência. Alguns espertos e manhosos, outros pareciam estar perdendo, lentamente, o contato com a realidade alguns, inclusive, falavam coisas desconexas. Maurício, que estava mais lúcido, gritava desesperado: “Eu quero maconha, pelo amor de Deus!”

Que blasfêmia, pensei! Colocar o nome do Criador nesta súplica. Mas esta é a ruína que o vício causa.

(...)

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(...)

Wainá foi um guerreiro que solidificou o império Inca na região dos Andes, subjugando e anexando as tribos opositoras entre 1440 e 1470.


Após vencidas as batalhas, os homens das tribos derro­tadas eram colocados em cabanas, que eram incendiadas. As mulheres eram levadas como escravas ou esposas para os guer­reiros.

Enquanto nos deslocávamos para Bunarrã, eu fiquei ima­ginando que emoções teríamos pela frente. Talvez, se eu soubes­se, teria solicitado a Hermes para ser dispensado da comitiva.

Em questão de minutos, deslocamo-nos para a região men­cionada. As equipes responsáveis nos receberam com carinho e atenção. Imediatamente, fomos conduzidos ao local rochoso onde repousava, entre a neblina, Wainá.

Ao aproximar-me, levei um choque. O corpo do viril guer­reiro estava liqüefeito. Os seus olhos profundos e indagadores eram o único ponto de seu corpo que parecia não estar derre­tendo. A pele do guerreiro parecia-se com um vulcão prestes a entrar em erupção. Surgiam, a todo momento, em várias partes do corpo, erupções cutâneas. O corpo inchava nestes pontos e arrefecia-se; em outros momentos, após o inchaço, a pele se abria e expulsava um líquido fétido muito parecido com um ácido que fervia com o contato exterior.

Em sua cabeça, ele portava uma coroa que representava o seu império andino. Talvez, um lembrete marcante do preço de sua cobiça e desejo de poder.

Via-se que os séculos em uma situação cruel como aquela modificaram o semblante autoritário e vingativo do poderoso guerreiro. Agora, ele apenas suplicava a clemência divina.

Hermes, aproveitando um momento de pausa no atendi­mento, disse:


—                 Wainá ceifou muitas vidas através do fogo! A lei de ação e reação faz com que ele sinta este mesmo fogo brotar de sua alma imortal para compreender a imensa tragédia que cau­sou a centenas de vítimas. As palavras do Cristo nos ensinam: “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.


Ele, em seus atos insanos, ateou fogo em jovens que luta­vam para defender a paz e a felicidade de suas famílias. Além de lhes roubar a ventura de uma vida feliz e saudável com seus parentes queridos, ainda raptava as viúvas e as tratava como escravas e prostitutas.


—                 Desde 1470 ele sofre este terrível destino?


—                 Sim, ele precisa expurgar de sua alma todas as toxinas necessárias para reingressar no mundo dos homens em nova reencamação. E este período já está se encerrando. Note que seus olhos já demonstram sentimentos nobres que antes não habitavam em seu coração.


Eu olhei, novamente, para aqueles olhos suplicantes e não pude deixar de avaliar o seu estado geral. Os lábios estavam caí­dos, deformados com a acidez que brotava de seus poros. Era possível ver toda a base das gengivas que, também, estavam em estado líquido. O nariz e as orelhas pareciam chocolate der­retido. Não havia cabelos. O tronco, braços e pernas estavam completamente tomados por úlceras que, quando se abriam, expeliam o ácido e gases de um mau cheiro insuportável.

Hermes, ajoelhado ao lado deWainá, era uma antítese ao seu paciente. O nobre mentor, belo e iluminado, ao lado do anti­go guerreiro, parecia um arcanjo divino em missão de socorro aos necessitados.

Ao tocar no enfermo para prestar-lhe atendimento, ocor­reu o mesmo fenômeno narrado no livro “A História de um Anjo”, no qual Gabriel, ao tocar os enfermos, transformava aquela região do corpo espiritual dos pacientes.

O nobre mentor, ao segurar a mão de Wainá, transformou todo o braço esquerdo do guerreiro. Inclusive, os dedos que estavam unidos, devido ao processo de liquefação, se distinguiram recuperando a forma humana. As erupções cutâneas, naquele membro, cessaram imediatamente.

Lágrimas corriam dos expressivos olhos do antigo líder do povo Inca que, através do olhar, comunicava-se com Hermes, haja vista suas cordas vocais estarem totalmente danificadas.

Shien, Crystal, Ramiro e Gaijin utilizavam-se de avança­dos recursos para propiciarem alívio ao paciente. Em questão de poucos minutos, Wainá respirava pausadamente e as arritmias cardíacas cessaram.

Hermes, com imenso amor, disse:


—                 Querido irmão, o prazo purgatorial está se encerrando. Agradece a Deus pelo momento chegado, onde poderás, atra­vés de nova encarnação no mundo dos homens, corrigir os teus erros e caminhar rumo à luz divina!


Após as palavras de Hermes, as lágrimas brotaram gros­sas dos olhos deWainá. Um sorriso de contentamento esboçou- se nos lábios caídos. Todos ficamos emocionados. Meus olhos ficaram marejados, devido à Cena espetacular.

Estávamos mais tranqüilos. Crystal, então, solicitou a minha colaboração na intervenção que realizava nos pulmões do corpo astral de Wainá. Eu aproximei-me assustado, pois não sabia o que fazer ante a um corpo em tão estranho esta­do. Segui as orientações da bela amiga, sem jeito e, ao aproxi­mar-me da região dos pulmões do paciente, fiquei estupefato. Era possível ver labaredas infernais queimando no interior do corpo daquele irmão.

Eu ergui meus olhos para Crystal e perguntei discretamente:


—                 Crystal, como será a reencamação deste nosso irmão? Ele ainda queima por dentro! O seu perispírito está completa­mente enfermo!

Mentalmente, a bela amiga respondeu:


—                 Roger, estas zonas purgatoriais são importantes para que o espírito drene suas toxinas nestes charcos, onde ele se liberará das impurezas que agregou à sua alma. A sua encar­nação será possível somente através deste recurso. Caso Wainá não permanecesse estes quinhentos anos neste processo, ele não conseguiria manter-se, um segundo sequer, vivo na carne e poderia, inclusive, matar a sua mãe durante a gestação, devido às descargas de energias negativas oriundas de sua alma.


Crystal jogou os cabelos para o lado, com um gesto com a cabeça, e continuou falando-me através da telepatia, porque Wainá não deveria ouvir nossas palavras:


—                 Através desta purificação, Wainá retomará ao mundo dos homens com uma quantidade mínima de cargas tóxicas a expelir. Provavelmente, ele irá sofrer com a temível doença conhecida popularmente como“fogo-selvagem”, que possui sin­tomas muito semelhantes ao que vemos neste instante.

Será uma vida difícil, mas infinitas vezes mais feliz que o atual momento deste nosso irmão! — concluiu Crystal.


—                 Realmente, Deus é a justiça suprema! Jesus possui plena razão, teremos que pagar “até o último ceitil”, por nossas faltas. E nos será dado segundo as nossas obras.


A bela amiga concordou com minhas palavras esboçando um significativo olhar. Neste instante, Wainá envolveu-se em profunda depressão, desequilibrando, novamente, o seu ritmo cardíaco e a respiração. A pressão arterial do antigo guerreiro subiu a níveis impressionantes.

Todos ficamos impacientes com a situação inesperada. Her­mes debruçou-se sobre o paciente e analisou a sua tela mental. Wainá estava rememorando a morte de um rapaz com o qual possuía laços profundos em existências anteriores e que ele havia queimado vivo em praça pública.

Rapidamente, todos começamos a emitir pensamentos de paz, enquanto Hermes procurava acalmá-lo com palavras de encorajamento. Mas nada adiantava. O fogo crescia dentro de Wainá! As erupções ressurgiram com toda a força. Até que o inesperado ocorreu!

No momento em que eu alcançava um pano embebido com as essências de Gaijin a Crystal, ao esticar o meu braço sobre o corpo de Wainá, uma úlcera explodiu, arremessando o líquido ácido nos meus braços, peito e rosto. Eu soltei um grito de hor­ror e saltei para atrás. Os meus batimentos cardíacos aceleraram vertiginosamente e perdi o contato com a realidade que me cir­cundava. Os amigos haviam desaparecido e parecia que eu esta­va cego ou aprisionado em um lugar escuro como o breu!

Eu gritei desesperado e apenas ouvia distante a voz de Hermes dispensando Crystal para auxiliar-me. Era-me possível apenas ouvir claramente um barulho ensurdecedor, como se fossem canos de ferro batendo-se uns nos outros.

Na hora, eu não entendi, mas em outra oportunidade Her­mes explicou-me que tratava-se do meu fio prateado sendo recolhido pelo meu corpo físico. Em virtude do susto que levei, o meu corpo material acordou-se em minha cama e tracionou, instintivamente, o cordão prateado para que o meu espírito retomasse imediatamente ao corpo.

Alguns segundos após começar a ouvir os estrondos cau­sados pela tração do cordão prateado, o meu espírito foi arras­tado de forma vertiginosa. Os solavancos durante o percurso quase me deslocavam o pescoço! Eu fiquei preocupado com a gravidade da situação e gritei desesperado por socorro.

Logo ouvi a meiga voz de Crystal tranqüilizando-me. Ela estava ao meu lado e não permitiria que nada de grave viesse a me ocorrer. Aquele retomo brusco ao corpo físico pareceu-me durar em tomo de dez minutos, mas, segundo Crystal, não levou quatro segundos.

Ao chegar ao local de destino, encontrei o meu corpo senta­do na cama soltando um grito surdo. Eu caí como uma pedra sobre o meu duplo físico e fiquei alguns segundos em desatino e com uma respiração ofegante.

Crystal, ao meu lado na cama, procurava acalmar-me. Apoiado sobre o cotovelo, disse-lhe para retomar, pois Hermes deveria estar necessitando do seu auxílio. Ela beijou-me na testa e deixou duas assistentes para averiguar a minha situação e efetuar passes calmantes em mim.

Devido ao choque, em poucos segundos perdi a visão astral, e não mais vi as moças que me auxiliavam a restabele­cer-me.

Levantei-me da cama com uma dor atroz no pescoço e servi-me de um copo de água. A minha cabeça parecia que iria explodir. Dirigi-me à sacada de meu apartamento e fiquei pen­sando nos últimos momentos antes de meu desequilíbrio.

Como estaria o pessoal na fronteira do Acre com o Peru? Será que eu havia comprometido o restabelecimento deWainá? E Crystal, que necessitou abandonar o atendimento em momen­to tão importante? Como estaria a situação depois de minha falha?

Eu sentei no sofá da sala, coloquei as mãos na cabeça e amaldiçoei a minha fraqueza. Eu estava em espírito, portanto, nenhum contágio ou mal poderia acarretar-me o líquido ácido que me atingiu!

Eu me levantei, apoiei minha mão na janela da sacada e, olhando as estrelas do céu, orei profundamente, pedindo a Deus que auxiliasse os meus amigos e amparasse Wainá, pois era a única coisa que eu poderia fazer, naquele momento, para corrigir a minha falha em momento tão precioso.

 

(...)


Passaram-se várias noites até eu recuperar o equilíbrio necessário para prosseguirmos com os estudos para a confecção desta obra. Eu ouvia, mediunicamente, a voz do irmão Hermes informando-me da importância de aguardarmos um breve perío­do para o meu refazimento do choque sofrido.

Até que, certa noite, passado o período de recuperação, estávamos, eu e Hermes, aguardando os demais amigos para o trabalho.

O nobre amigo espiritual estava sentado em uma confor­tável poltrona, analisando alguns documentos e fazendo anota­ções em uma agenda eletrônica centenas de vezes mais moder­na do que as que conhecemos. Enquanto isso, eu me mantinha em silêncio com um olhar cabisbaixo. O meu desequilíbrio na nossa última tarefa ainda causava-me decepção e tristeza.

O nobre mentor, percebendo meu silêncio, disse afetuoso:


—                 Querido irmão, qual o motivo do silêncio?


Eu respirei fundo, ergui a cabeça e disse desanimado:


—                 Tu sabes, Hermes! É o meu fracasso em nossa última atividade.


O nobre mentor sorriu e falou prestimoso:


             —             Não deves te preocupar com o que ocorreu. Nós conse­guimos corrigir a situação sem maiores problemas. E, ademais, era previsível a tua fraqueza naquela circunstância. Eu já te disse, por diversas vezes, que, no campo do conhecimento, tu já alcançaste um significativo avanço, mas, no que se trata da caridade cristã e no que diz respeito ao desligamento dos aspec­tos exteriores para servir exclusivamente ao bem do próximo, ainda tens muito a caminhar!


Eu concordei com Hermes, com um olhar tímido. Ele tinha razão! No que diz respeito ao amor aos nossos semelhantes, ainda não consigo desprender-me de tudo com o objetivo único de auxiliar, desconsiderando as doenças repulsivas e a situação de mendicância de nossos irmãos falidos.

Apesar do meu espírito científico, me é difícil analisar o paciente exclusivamente como um irmão necessitado de amor e carinho. Sempre surge, mais forte em minha mente, a aversão ao cheiro, à sujeira e ao estado em que se encontra o irmão que sofre os impactos da Lei. Esta minha característica faz-me per­der a concentração para melhor ajudar. E fundamental esque­cer estas questões para auxiliar em nome do Cristo!

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