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Estado de não-julgamento


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Eu estava lendo um livro do OSHO  ( Destino, Liberdade e Alma ) , e encontrei um texto interessante de ler. Gostaria de compartilhar com o grupo, e talvez vocês possam falar de suas impressões.

Particularmente, não entendi o que ele queria dizer ...

 

Texto:

 

[...] ... Mas todas as religiões têm corrompido as mentes, porque não as ensinaram a observar , a entender. Em vez disso , deram-lhe conclusões - que a "raiva é ruim " . E  no momento em que você condena algo já assumiu certa posição de julgamento. Você julgou, e agora não pode estar consciente.A consciência necessita de um estado de não-julgamento , e todas as religiões tem ensinado julgamento às pessoas : " isto é bom, isto é ruim ", " isto é pecado, isto é virtude" 

 

Essa é toda a estupidez na qual o cérebro humano vem sendo carregado a há séculos. Então, em relação a qualquer coisa, no momento em que você a vê ,  há imediatamente um julgamento sobre ela dentro de você. Você não consegue simplesmente vê-la, não consegue ser um espelho sem dizer nada. O entendimento vem quando a pessoa se torna um espelho, um espelho de tudo o que acontece na sua mente.

 

Há uma bela história - não somente uma história, mas um fato real.

Um discípulo de Gautama, O Buda, está saindo em uma jornada para difundir sua mensagem. Ele tinha vindo ver Buda e obter sua bênção e lhe perguntar se havia alguma última mensagem., algumas palavras que pudessem lhe ser ditas.

Gautama, O Buda disse:: "Lembre-se apenas de uma coisa, enquanto estiver caminhando , mantenha seu olhar a apenas quatro pés adiante, apenas olhando a quatro pés adiante."  Desde esse dia, há 21 séculos, os monges budistas tem caminhado da mesma maneira. Era uma estratégia para evitar que eles olhassem principalmente as mulheres.

Esses discípulos eram monges, e haviam feito voto de celibato.

 

Ananda, outro dos discípulos de Gautama, O Buda, não conseguia manter os olhos focalizados sempre a quatro pés adiante. E indagou : " Eu quero saber:  Qual a razão disso ? ".

 

Buda disse : " Essa é a maneira em que ele vai evitar olhar para uma mulher, pelo menos para o rosto de uma mulher - no máximo vai ver os pés dela " .

"Mas", disse Ananda, "pode haver situações em que a mulher esteja em perigo . Por exemplo, ela caiu em um poço e está gritando por socorro. O que o seu discípulo deve fazer ? Ele terá de ver o rosto dela, o corpo dela".

 

Buda disse: " Em condições especiais, ele tem permissão de vê-la , mas essa não é a regra, é apenas uma exceção ". 

 

Ananda disse: " Enquanto ao toque ? - porque pode haver situações em que uma mulher caia na estrada. O que o discípulo deve fazer ? Deve ou não ajudá-la a se levantar ? Ou se uma mulher idosa quiser atravessar um a estrada - o que seu discípulo deve fazer ? ".

 

Buda disse : " Como uma exceção, mas lembre-se, essa não é uma regra. - ele pode tocar a mulher com uma condição. E se ele não conseguir satisfazer a condição não lhe serão permitidas as exceções. A condição é a de que ele deva permanecer como um espelho. ele não deve fazer nenhum julgamento, tomar nenhuma atitude. ' A mulher é bonita ' - esse é um julgamento. ' A mulher é justa ' - esse é um julgamento. Ele deve permanecer um espelho para que lhe sejam permitidas as exceções. Do contrário, deixe a mulher ficar no poço; outra pessoa irá salvá-la. Ele que salve a si mesmo".

 

O que Buda está dizendo é que , em toda situação em que a mente inicia qualquer tipo de desejo, ambição, desejo sexual, possessividade, o meditador tem de ser apenas um espelho . E o que isso vai fazer ? Ser apenas um espelho significa que você está simplesmente consciente.

____________________________________

Perguntas que me veio à mente. Podem  ajudar a respondê-las ? 

 

Por que a consciência necessita de um estado de não-julgamento?

 

Por que quando afirmamos uma frase imperativa ( você é isso ou aquilo ... ) estamos julgando uma pessoa ?

 

Por que uma pessoa que não julga precisa ser o espelho de outra pessoa ?

 

" Ser apenas um espelho significa que você está simplesmente consciente. "  ( Consciente de quê ? e Porque ? ) 

 

 

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Eu acho esse lance de "não julgamento", quado estamos falando de vida cotidiana,  uma tolice.

Para julgar você precisa estar consciente, o julgamento é resultado da análise de uma mente que sabe separar veneno de comida, cobra de corda. Me parece uma compreensão DISTORCIDA do funcionamento da mente, e dos MOMENTOS. Momento de meditação não pode ser confundido com momento de ação.

Note, na passagem de buda diz:

Citar

"Mas", disse Ananda, "pode haver situações em que a mulher esteja em perigo . Por exemplo, ela caiu em um poço e está gritando por socorro. O que o seu discípulo deve fazer ? Ele terá de ver o rosto dela, o corpo dela".

Buda disse: " Em condições especiais, ele tem permissão de vê-la , mas essa não é a regra, é apenas uma exceção "

Há portanto o JULGAMENTO DA SITUAÇÃO, que é classificada, APÓS JULGAMENTO, como de PERIGO. Precisa consicência, lucidez, para julgar corretamente.

Mas e se não fosse uma pessoa em perigo ali? Se fosse uma cobra que vai dar um bote num passarinho? Aí ele tlavez dissesse  "apenas observe, seja um espelho". Por que?  Porque JÁ HOUVE JULGAMENTO e foi decidido que sendo os animais nas suas relações, tudo bem, apenas observe não interfira,mas se for um humano em perigo, então interfira. 

Para quem possui uma mente, o julgamento está o tempo todo acontecendo. Sem julgamento não há ação, porque não há tomada de decisão.

Não há como alguém estar atuante no mundo e não julgar, o ideia de NÃO JULGAMENTO só tem ALGUM VALOR para os processos de meditação e observação do funcionamento da sua própria mente, porque quando você está tentando conhecer seu mundo INTERIOR, julgar gera DISTORÇÃO, REPRESSÃO, JUSTIFICATIVAS, ETC... você não vai conseguir observar e conhecer porque ao julgar você interfere no próprio "objeto mental" que está sendo observado

Mas para os eventos do mundo físico, que ficam FORA DA SUA MENTE, você precisa julgar o tempo todo, ou não tomará as DECISÕES corretas para sair da frente de um perigo, por exemplo. Mas sentado meditando ninguém precisa tomar decisões, porque você não está se relacionando com o mundo exterior,  então fica esse papinho de não julgar...

Mas note que a explicação na parábola de Buda  parece ser aplicada à meditação caminhando.  Se as circunstâncias do mundo exterior exigem ação, o estado de inação, fruto do não julgamento, precisa ser abandonado.

Me parece que as pessoas que seguem essas idéias ficam meio perdidas nas questões mundo exterior x mundo interior, porque como só percebemos o mundo exterior pelas percepções da mente, concluem que tudo só existe na mente, e então passam a achar que conselhos que só valem para  situações passivas, protegidas e isoladas do mundo exterior valem também para o dia a dia, nas relações. 

Note que o discípulo de Budha trouxe exemplos de vida, de ações, de decisões e isso já começou a esculhambar a regra geral, porque essa regra geral na verdade é ela mesma uma exceção, pois em quais situações durante a vida estamos longe da ação? Apenas quem decide levar a vida como monges, ,se esquivando da vida, a inação é a regra, e portanto para eles o não julgar pode ser a regra geral. Para nós, que vivemos em meio a sociedade, em meio a ação e decisões, julgar é fundamental. 

Agora, sempre que eu falo isso as pessoas vem explicar um outro significado que elas atribuem à palavra julgar. Mas aí elas que se expliquem, eheh. As vezes parece que elas acham que julgar é sinônimo de condenar, ou de criticar, mas não é.  Você julga para inocentar também, julga para concluir que este caminho é bom, que estas companhias são melhores que as outra,s que devem ser evitadas, para que não sejam amizades que desviem a pessoa do rumo que ela escolheu. 

A meu ver, na vida prática, são justamente os "pilantras" ( e o Osho parece um exemplo) que mais invocam a regra do "não julgar", porque eles detestam ser vistos como golpistas incorrigíveis.  Eles querem sempre ter direito a uma nova chance de aplicar novos golpes. Na vida prática, chapeuzinho vermelho que não julga a vovó pelo focinho, vira comida de lobo, ehehe

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Citar

Por que a consciência necessita de um estado de não-julgamento?

A mente e a consciência são coisas diferentes. A mente é um aglomerado de padrões, um enorme algoritmo que vamos formando logo que começamos a perceber o mundo exterior, ainda bebês, e que vai ficando maior e maior:

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Isso nos ajuda a tomar decisões, porém, a medida que ele vai ficando mais complexo, toda a sua percepção de mundo  vai ficando automatizada. Voce adquire prática em usar o alrgoritmo que construiu e não o revisa mais em busca de erros. Quem usa algoritmos? Programadores, porque tudo que um computador faz é seguir esses algortimos. É por isso que computadores são "máquinas burras". Não há verdadeira reflexão, há escolhas entre opções fixas, pré-estabelecidas pelo programador. 

E nós? Infelizmente nós também funcionamos assim em boa parte do tempo. Nossa mente é esse algoritmo. Só quando seu algoritmo "buga" você aciona sua capacidade de reflexão de novo, para tentar achar uma nova resposta acionando sua consciência, já que o algoritmo usado não oferece soluções. Bugou né? Então quando você paralisa e pensa "Não sei o que pensar..." é , digamos assim, esse bug.

Isso tem seu lado bom, você precisa olhar com toda a atenção para aquela situação e dar seu melhor, buscar uma compreensão lá no fundo, na consciência, não na mente,  para solucionar a questão. Estará saindo da sua "zona de conforto", do seu algoritmo, e usando algo menso automatizado em você... ESPERA-SE... 

Mas as vezes a pessoa confia tanto no seu algoritmo interior que se recusa a sair dele, sente-se ameaçada pela situação, e vai dar respostas automatizadas que não ajudam em nada, porque ela não sabe mais parar e refletir e buscar respostas novas para situações novas.

Para isso ela precisa PARAR,  controlar os automatismo interiores, desativar o algoritmo, e então tentar REALMENTE usar sua compreensão interior para achar a melhor resposta. Caso funcione, essa resposta será incorporada ao algoritmo,  de modo que da próxima vez que aquilo acontecer, ou algo similar, ela vai agir do mesmo jeito que antes, para acelerar a solução.

Por isso no treino de meditação você tenta deixar sua mente mais parada, menos responsiva, para observar apenas o que surigir. É um treino para tentar funcionar sem depender tanto do gigantesco algoritmo que é a mente.

"Não julgar", no fundo, é isso: tentar parar o algoritmo sempre que AS CONDIÇÕES PERMITIREM , porque isso te faz sair do automatismo, sua psique fica menos "máquina". Em tese, a correta atitude para a consciência é olhar cada evento como se fosse novidade. Um bebê ouve o som de um passarinho e se espanta pela novidade. Mas também  se espanta com o som de papel sendo rasgado. Após alguns anos nós nem percebemos mais essas coisas como "estímulos", você ouve, cataloga "passarinho...papel rasgado", e seu consciente nem atenta para isso, PORQUE VOCE VAI FOCAR ME OUTRAS COISAS MAIS IMPORTANTES.

A grande armadilha disso é que você pré-julga o que é mais importante, e pode deixar passar muitas oportunidades de aprendizado:

-  Você decide não prestar atenção nos ruídos externos se está estudando, porque esses ruídos não são importantes...

- Pode também decidir não dar atenção a sua família, porque pode ter trazido trabalho para casa e achar que o trabalho é mais importante... 

-Pode decidir que não via dar atenção a essa coisa vaga de espiritualidade, porque a carreira profissional é o mais importante...

Em tudo isso há julgamentos, e em todo o julgamento há o risco de errar. Tentar reduzir a velocidade do julgamento, dando chance para que a reflexão exista em meio ao algoritmo é o que pode ajudar-nos a sermos menso robotizados. Mas eliminar o  julgamento não parece sábio, ou possível, a meu ver, exceto para Mestres, que ja dominaram esse aspecto e sua mente lhes serve, ao invés de comandar tudo com o algoritmo mental.

2 horas atrás, Ashram disse:

Por que quando afirmamos uma frase imperativa ( você é isso ou aquilo ... ) estamos julgando uma pessoa ?

Mera definição da palavra: https://www.dicio.com.br/julgar/

 

2 horas atrás, Ashram disse:

Por que uma pessoa que não julga precisa ser o espelho de outra pessoa ?

Pense na imagem  refletida na água ou num espelho. A consciência que observa o mundo é como o espelho, a informação que penetra de fora, vem pelos sentidos e imprime no seu interior "algo" (som+imagem+sensação...). Se você REAGE a isso, e julgar é uma foma de reagir, porque separa, cataloga, classifica, agrupa com similares, compara com o que é seu oposto.. é como se caísse uma pedra no lago, e gerou ondas. Agora o reflexo está  imperfeito., a imagem que você capta é confusa, distorcida. Exemplo: seu pai brigava com você quando era criança, falava de um certo jeito quando fazia isso, torcia a boca, olhava para a esquerda, sei lá... Seu algoritmo arquivou esses trejeitos junto com a punição paterna. Já adulto você começa a trabalhar  e ao conhecer seu chefe percebe nele um mesmo jeito com a boca ou olhar.. Pronto, já não vi com a  cara dele e nem sabe porque, ele ainda não te deu motivos. 

Mas seu algoritmo apitou: pessoas com esse jeito de mexer a boca e olhos me criam problema

Se você não for capaz de detectar que a origem desse apito do algoritmo é uma programação anterior, é você quem vai agir errado com sue chefe, dando motivos a ele para que te trate mal, e aí você dirá "eu sabia! quando eu conheci esse cara eu senti que ele não era boa coisa!"

Mas foi você quem deu motivos a ele, porque deixou que o julgamento antigo, do algoritmo da infância, interferisse nas relações com aquela pessoa no presente. Você nã o viu como ele realmente era, lá no dia que o conheceu. Você vi seu pai projetado nele. Ou seja, seu algoritmo jogou a pedrinha na água da mente, e a imagem que refletiu nela , do seu chefe, foi percebida com as distorções que perinhas causam quando jogadas na água. E essa imagem distorcida tornou seu chefe a cara do seu pai.  Por isso a idéia de que só podemo perceber a verdade sobre algo , quando nossa mente é passiva como um espelho,  porque aí sim o que está fora é igual ao que está sendo captado dentro de você, não há agitações no reflexo para distorcer a percepção.

2 horas atrás, Ashram disse:

Ser apenas um espelho significa que você está simplesmente consciente. "  ( Consciente de quê ? e Porque ? ) 

Consciente daquilo que entrou pelas portas da percepção. É como uma camera com detector de movimentos, apontada para uma porta: quado passa alguém em frente a porta ela detecta. Apenas reconhece a presença. Decidir se é um animal ou pessoa já é algum grau de julgamento. Decidir que , se é uma pessoa, deve disparar alarme, já é algoritmo. Uma pessoa consciente nessa situaçaõ da câmera detectaria a presença e se houvesse tendência de disparar o alarme (medo, raiva, atração, ) detectaria esse outro elemento entrando pelas portas da percepção: o medo, ou a raiva, ou a atração. Então ela ja tem dois elementos detectados: a presença exterior e o funcionamento do algoritmo inteiror, que pede para disparar o alarme. E la irá então se perguntar: Por que meu algoritmo dispara medo/raiva/atração ao ver essa presença? 

A câmera não pode fazer isso, n[os podemos, porque os sentidos detectam a presença, a mente aciona o algoritmo, e a consciência observa ambos para entender como eles se relacionam.

 

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2 horas atrás, sandrofabres disse:

A meu ver, na vida prática, são justamente os "pilantras" ( e o Osho parece um exemplo) que mais invocam a regra do "não julgar", porque eles detestam ser vistos como golpistas incorrigíveis.  Eles querem sempre ter direito a uma nova chance de aplicar novos golpes. Na vida prática, chapeuzinho vermelho que não julga a vovó pelo focinho, vira comida de lobo, ehehe

Meu posicionamento sobre Osho é igual ao do @sandrofabres, e recomendo que se você gosta de ler os livros do Osho, que na verdade grande parte senão todos foram escritos pela organização que está por trás do nome dele e não ele, assista https://www.netflix.com/br/title/80145240, e tire suas conclusões sobre este guru e o que ele representa.

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também acho impossível deixar de julgar alguma coisa... até no mundo espiritual é impossível deixar de julgar. 

Comprei o livro pensando que me traria ideias novas, e não reclamo pelo conteúdo ...  De certa forma, foi um julgamento inconsciente porque considerei esse livro melhor entre as escolhas que eu tinha na livraria...

Achei um pouco duro você falando que ele é pilantra rsrsrs. Pensei que a intenção dele foi de ensinar um dharma.
Não creio que haja verdade absoluta para esse tema, mas os argumentos opostos são úteis para gerar massa crítica.

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10 horas atrás, Ashram disse:

Por que a consciência necessita de um estado de não-julgamento?

Julgamentos refletem seus preconceitos e suas tendências atávicas -- suas marcas mentais, que são o guia dos comportamentos automáticos, inconscientes. Como creio que Ramakrishna disse, a mente é uma serva dócil, mas uma senhora cruel. É preciso ir além da mente para dominá-la, desidentificar-se com ela, para começar, como você não se identifica com o seu corpo físico. A metáfora de se tornar um espelho é uma referência a uma mente limpa, clara, onde as coisas possam refletir como são. Dentro da tradição oriental, e num sentido muito amplo, há uma ênfase na limitação do intelecto para compreender a existência, e daí vem um forte direcionamento à busca de transcender a mente. Meditação é, em grande parte, um exercício de observação da própria mente num, por assim dizer, ambiente controlado, onde essa observação possa ser o mais nítida possível.

10 horas atrás, Ashram disse:

Por que quando afirmamos uma frase imperativa ( você é isso ou aquilo ... ) estamos julgando uma pessoa ?

O que significa julgar? Formar um juízo, tomar uma posição. É completamente tautológico. Se eu digo "você é isso", trata-se de um julgamento por definição. Não é um julgamento só quando é negativo, condenatório. Dizer "você é bonito" é um julgamento tanto quanto dizer "você é feio".

10 horas atrás, Ashram disse:

Por que uma pessoa que não julga precisa ser o espelho de outra pessoa ?

O espelho é só uma metáfora. Um espelho reflete o que se põe diante dele sem preferência, sem discriminação. É como, na linguagem abraâmica, Deus, que "faz raiar o sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos".

10 horas atrás, Ashram disse:

" Ser apenas um espelho significa que você está simplesmente consciente. " ( Consciente de quê ? e Porque ? ) 

Está simplesmente consciente, sem necessariamente um objeto para o foco da consciência. Se você, por um instante, perdesse acesso a todos os seus órgãos do sentido e, nesse momento, além disso, silenciasse a sua mente, deixaria de estar consciente? No hinduísmo, em particular, fala-se do estado de samadhi, que segundo algumas visões envolve justamente esse silêncio absoluto onde surge uma percepção mais ampla e profunda, verdadeiramente cósmica.

 

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7 horas atrás, sandrofabres disse:

A meu ver, na vida prática, são justamente os "pilantras" ( e o Osho parece um exemplo) que mais invocam a regra do "não julgar", porque eles detestam ser vistos como golpistas incorrigíveis.

Meu julgamento, com todo respeito, é que essa é uma simplificação um tanto grosseira. ;) Nas tradições orientais há uma forte visão não-dualista, tanto no taoísmo, quanto no hinduísmo ou no budismo. Dentro dessa perspectiva, qualquer julgamento é subjetivo, relativo, arbitrário, parcial. As palavras são maleáveis e carregam sutilezas dependentes de contexto, então no meio budista, por exemplo, muitas vezes você vai ouvirem falando em "discernimento" em vez de "julgamento", como falam em "aspiração" em vez de "desejo", ou "realização" em vez de "conquista". Sem falar  de um sujeito ocidental chamado Jesus que era outro que pregava o tal do "não julgar". Existem muitos níveis em que tudo isso pode ser analisado.

Feita essa ressalva, é claro que os que desejam abusar procuram manipular suas vítimas de todas as maneiras possíveis. Como agora o caso do médium de cura João de Deus, o qual, segundo inúmeros depoimentos, dizia coisas como "confie, se entregue, é assim que você vai se curar", enquanto abusava sexualmente de mulheres que o procuravam para ajuda.

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5 horas atrás, Carlosmeneses6 disse:

os livros do Osho, que na verdade grande parte senão todos foram escritos pela organização que está por trás do nome dele e não ele

O Osho de fato nunca escreveu nenhum livro. Todos os livros (várias centenas deles) publicados sob seu nome são transcrições de discursos orais. Alguma edição pode estar envolvida, naturalmente. Os áudios completos de muitos desses discursos podem, inclusive, ser baixados gratuitamente. Mas estão todos em inglês ou hindi.

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4 horas atrás, Adriano disse:

Sem falar  de um sujeito ocidental chamado Jesus que era outro que pregava o tal do "não julgar"

 

Citar

11 – Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós. (Mateus, VII: 1-2).

Ou seja: se você não se incomoda de ser julgado pela mesma medida que usa para julgar os outros, tá tudo certo.

No caso dos pilantras, qualquer pessoa honesta pode julgar os pilantras com toda tranquilidade, sem nenhum  conflito de consciência em relação a sua espiritualidade. Aliás, o sistema judiciário é construído em cima disso. Ele não poderia existir se para ser juiz todos tivessem que ser perfeitos.

O próprio Jesus julga  várias vezes, mostrando que o problema não é o julgamento em si:

Citar

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! (...)Mateus 23:14

Raça de víboras! Como podeis falar coisas boas, sendo maus? (...)  Mateus 12:34

Vós sois filhos do Diabo, e tendes vontade de cumprir os desejos de vosso pai. (...)  João 8:44

Mas na prática o que acontece é que há muito julgamento precipitado, confiando mais em boataria do que em fatos, e POR ISSO  julgamentos errados. Não há problema algum se o julgamento for correto:

Citar

Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo. E se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro; (....). João 8:15,16

Contradição justificada pela auto-classificação como alguém melhor habilitado. Os fariseus certamente teriam outra opinião sobre sua própria auto-classificação, e sobre Jesus. Portanto não há saída, todos julgam, e devem julgar, segundo suas próprias luzes internas. Alguns estarão mias errados que outros, mas ninguém se esquiva da necessidade de julgar, nem Jesus se esquivava, ainda que tente usar isso isso como discurso.

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Na prática, podemos pensar em três esferas concêntricas de posicionamento. Na mais externa, a esfera pública, existe relevância em se posicionar, denunciar, criticar ou aplaudir. Na mediana, a esfera interpessoal, de relacionamentos, também podemos ser chamados a opinar, aconselhar, e inclusive a admoestar. Na mais interna, a esfera da consciência individual, é possível que o modo padrão seja de não-julgamento, sem prejuízo da capacidade de fazê-lo, e com muito discernimento, quando necessário, como nos casos em que precisamos atuar nas esferas mais exteriores.

Meu entendimento é que alguém como Jesus operava mais ou menos dentro desses moldes. Podemos ler sobre suas admoestações públicas, como aos escribas e fariseus, sobre seus diálogos um a um com diversos indivíduos. Sobre sua postura íntima, só podemos especular, mas me parece razoável supor que ele não andava por aí se escandalizando com tudo que via, com uma vozinha na cabeça reclamando de tudo e de todos nesse mundinho atrasado em que ele reencarnou. Ou mesmo que precisasse repetir internamente algo como "é normal, é o estágio evolutivo deles, são as condições desse mundo de matéria grosseira, um dia passa...", como que se consolando.

 

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No meu entendimento, o julgamento por si só é a auto-hipnose e pode nos fazer deixar de perceber as coisas como elas são. Passamos a perceber as coisas como elas se apresentam sob a nossa ótica, então tem uma carga gigantesca de relatividade aí, pois cada um enxerga e entende as coisas de uma forma, e o julgamento pode fechar o entendimento das coisas à nossa própria forma, que já está em nós. Desta forma, não teríamos nada a aprender com o meio, uma vez que julguemos o meio de acordo com o nosso prisma... Obviamente, as noções de julgamento são parte do entendimento das coisas e dos processos, então o julgamento pode ser um resultado das correlações cognitivas que construímos a partir das nossas vivências... O erro está em julgar antes de entender...

Acredito que o ponto do julgamento levantado nessa passagem possa ter relação com a "identificação" que é falada nas escolas de quarto caminho. A ideia de que nós nos identificamos com as coisas, nos identificamos com as ideias e com as nossas concepções, e isso faz com que não percebamos as coisas e pessoas como elas são, mas como nós as percebemos e os efeitos dessas para conosco (uma visão egocêntrica do mundo)... Obviamente o julgamento corriqueiro é fundamental para a nossa existência, ao julgar o que é bom e o que é ruim, como já disseram aqui. Mas existem julgamentos inúteis, que muitas vezes são base dos nossos desapontamentos ou são produtos de um inconsciente coletivo (como julgamentos estéticos ou julgamentos a respeito do que é desconhecido, ou julgamentos com base em meias informações - preconceitos), na minha opinião estes são os julgamentos que devem ser eliminados, assim como julgamentos a partir de expectativas, mas o julgamento do que é bom ou ruim é parte do nosso processo de entendimento e memória do que vivenciamos, associando as situações aos respectivos efeitos...

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Vou citar um excerto de um livro do próprio Osho em que ele desenvolve mais o tema. O livro é "Antes que você morra" ("Until you die", no original), e aborda o Sufismo. (O livro pode ser encontrado na rede em pdf tanto em português quanto no original, assim como se encontram os áudios dos discursos originais.) 


 

Citar

Não Julgueis

Um jovem veio a Dhun-Nun e disse que os Sufis estavam errados, e muitas outras coisas. O egípcio tirou um anel do dedo e lhe entregou: "Leve isto para os mascates e veja se pode conseguir uma peça de ouro por ele", disse. Ninguém no mercado ofereceu mais do que uma só peça de prata pelo anel. O jovem trouxe o anel de volta. "Agora", disse Dhun-Nun, "leve o anel a um verdadeiro joalheiro e veja o que ele pagará". O joalheiro ofereceu mil moedas de ouro pela pedra. O jovem ficou assombrado. "Então", disse Dhun-Nun, "seu conhecimento sobre os Sufis é tão vasto quanto o conhecimento dos mascates sobre jóias. Se você quer avaliar pedras preciosas, torne-se um joalheiro".

Jesus diz: "Não julgueis", e este é um dos maiores ensinamentos jamais proferidos por qualquer homem no mundo. Isso é uma das coisas mais impossíveis para a mente. A mente julga de imediato; sem qualquer base, a mente faz um julgamento. Você fez muitos julgamentos, sem sequer ver se existia ou não alguma base para eles. E se olhar bem profundamente, verá que Jesus está certo. Todo julgamento é errado, porque o mundo todo está tão profundamente interligado que, a menos que você conheça o todo, não poderá conhecer a parte. Uma coisa leva à outra, porque está interligada. O momento presente está interligado com todo o passado e com todo o futuro. Neste momento culmina toda a eternidade. Tudo que aconteceu está aí; tudo que está acontecendo está aí; tudo que acontecerá está aí. Como você pode julgar? O mundo não está dividido. Se estivesse dividido, então um fragmento poderia ser conhecido, mas o mundo é uma totalidade. Todos os julgamentos são falsos, porque são parciais — e eles vão reivindicar como sendo o todo.

Sim, Jesus está absolutamente certo: "Não julgueis", porque o próprio julgamento vai fechar você; será uma morte interior. Sua sensibilidade estará perdida, e com ela a sua possibilidade de crescimento. No momento em que julga, você diminui, você pára; quando julga, você não floresce mais.

Assim, a maior coisa é ser corajoso o bastante para não julgar. Na verdade, suspender um julgamento é a maior coragem, porque a mente está tão ansiosa para julgar, para dizer bom ou mau, certo ou errado. A mente é adolescente, pula de um julgamento para outro. Se você quiser algum dia sair da mente — e sem isso não há possibilidade de crescimento interior —, então: "Não julgueis".

Vou lhe contar uma pequena estória. Aconteceu no tempo de Lao-Tzu, na China, e Lao-Tzu gostava muito dela. Durante gerações seus seguidores a têm repetido e encontrado mais e mais significado nela. A estória cresceu, tornou-se um fato vivo.

A estória é simples: Havia um velho muito pobre numa vila, mas mesmo os reis tinham inveja dele, porque ele possuía um belíssimo cavalo branco. Um cavalo como esse jamais havia sido visto antes — tal a beleza, a grandiosidade, a força. Os reis queriam o cavalo e ofereciam preços fabulosos, mas o velho dizia: "Este cavalo não é um cavalo para mim, é uma pessoa, e como posso vender uma pessoa? Ele é um amigo, não é uma propriedade. Como posso vender um amigo? Não, não é possível". O homem era pobre, a tentação era grande, mas ele nunca vendia o cavalo.

Certa manhã, ele verificou de repente que o cavalo não estava no estábulo. Toda a vila se reuniu e disse: "Seu velho tolo, nós já adivinhávamos que algum dia o cavalo iria ser roubado. E você é tão pobre — como pode proteger tal preciosidade? Teria sido melhor vendê-lo. Você poderia ter conseguido qualquer preço que pedisse, qualquer preço louco teria sido possível. Agora o cavalo se foi. E uma maldição, um azar".

O velho disse: "Não vão tão longe — digam simplesmente que o cavalo não está no estábulo. Este é o fato; todo o resto é julgamento. Se é um azar ou não, como podem saber? Como podem julgar?"

O povo contestou: "Não tente nos fazer de bobos. Podemos não ser grandes filósofos, mas nenhuma filosofia é necessária. E o simples fato de que um tesouro foi perdido e é um azar".

O velho disse: "Eu me prendo ao fato de que o estábulo está vazio e que o cavalo se foi. Todo o resto eu não sei — se é um azar ou uma bênção — porque isto é apenas um fragmento. Quem sabe o que vem depois?"

O povo riu. Eles pensaram que o velho tinha ficado louco. Eles sempre souberam que ele era um pouco doido; se não o fosse, teria vendido esse cavalo e vivido com fartura. Mas ele vivia como um lenhador, estava muito velho, ainda cortando lenha, trazendo madeira da floresta, vendendo-a. Vivia da mão para a boca, na miséria e na pobreza. Agora, estava mesmo comprovado que este homem era louco.

Depois de quinze dias, subitamente numa noite o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, mas fugido para a floresta. E não só havia voltado, como trazido com ele uma dúzia de cavalos selvagens. Novamente o povo se reuniu e disse: "Velho, você estava certo e nós errados. Não foi um azar, ficou provado ter sido uma bênção. Pedimos desculpas pela nossa insistência."

O velho respondeu: "Mais uma vez vocês estão indo longe demais. Digam apenas que o cavalo voltou e digam que doze cavalos vieram com ele — mas não julguem. Quem sabe se isto é uma bênção ou não? Trata-se apenas de um fragmento. A menos que vocês saibam toda a estória, como podem julgar? Vocês leem uma página de um livro, como podem julgar o livro todo? Vocês leem uma frase numa página — como podem julgar a página inteira? Vocês leem uma única palavra em uma frase — como podem julgar a frase toda? E mesmo uma só palavra não é tudo — a vida é tão vasta —, um fragmento de uma palavra e vocês julgaram o todo! Não digam que isto é uma bênção, ninguém sabe. E estou feliz no meu não-julgamento; não me perturbem."

Desta vez o povo não pôde falar muito; talvez o homem estivesse certo outra vez. Por isso ficaram quietos, mas, no fundo, sabiam muito bem que ele estava errado. Doze cavalos lindos tinham vindo com o cavalo. Com um pouco de adestramento, poderiam ser todos vendidos e renderiam muito dinheiro.

O velho tinha um filho jovem, um único filho. O jovem começou a adestrar os cavalos selvagens; uma semana depois, ele caiu de um dos cavalos selvagens e quebrou as pernas. O povo se reuniu de novo — povo é povo em todo lugar, assim como você é você onde estiver— e julgaram outra vez. O julgamento vem tão depressa! E disseram: "Você estava certo, novamente provou que estava certo. Não era uma bênção, era outra vez uma maldição. Seu único filho perdeu as pernas e, na sua velhice, ele era seu único apoio. Agora você está mais pobre do que nunca."

O velho disse: "Vocês estão obcecados pelo julgamento. Não vão tão longe. Digam apenas que meu filho quebrou as pernas. Quem sabe se é uma maldição ou uma bênção? — ninguém sabe. Novamente um fragmento e nada mais lhes é dado. A vida vem em fragmentos, e o julgamento é sobre o total."

Aconteceu que depois de algumas semanas, o país entrou em guerra com um país vizinho, e todos os jovens da vila foram forçados a se engajar no exército. Apenas o filho do velho foi dispensado, porque estava aleijado. O povo se reuniu, gritando e chorando, porque de todas as casas os jovens foram tirados à força. E não havia possibilidade de eles voltarem, pois o país que havia atacado era um país grande e a luta era perdida. Eles não iriam voltar.

Toda a vila estava gritando e chorando; vieram até o velho e disseram: "Você estava certo, velho! Deus sabe, você estava certo ;— isto provou ser uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre. Pelo menos ele está vivo e com você, e aos poucos ele vai começar a andar. Talvez ainda fique um pouco manco, mas estará bem."

O velho disse outra vez: "É impossível falar com vocês, vocês continuam sempre e sempre — vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas isto: que seus filhos foram obrigados a entrar no exército, no serviço militar, e meu filho não foi obrigado. Mas ninguém sabe se é uma bênção ou um azar. Ninguém jamais será capaz de saber. Só Deus sabe."

E quando dizemos que só Deus sabe, significa que só o Total sabe. Não julgue, caso contrário você jamais será capaz de se tornar um com o Todo. Com os fragmentos, você ficará obcecado pelas pequenas coisas, você vai tirar conclusões. E os Sufis são muito insistentes nisto: que você nunca se preocupe com as coisas que estão muito além de você; mas você julga até mesmo a respeito delas. Sua consciência está num degrau muito baixo da escada. Você vive no vale escuro da miséria, da angústia, e dos seus vales mais escuros de misérias você julga até um Buda. Mesmo um Buda não é deixado sem julgamento, mesmo um Jesus é julgado por você — não só julgado, mas crucificado; julgado e considerado culpado; julgado e punido.

[...]

Uma vez que julgue, você pára de crescer. Julgamento significa um estado estagnado da mente. Agora o movimentou parou, o esforço de saber mais parou, o esforço de crescer parou. Você já fez seu julgamento e terminou. E a mente sempre deseja julgar, porque o movimento a incomoda. Estar em processo é sempre arriscado. Chegar a uma conclusão significa que se alcançou a meta; agora não há jornada.

[...]

Mas, comumente, as pessoas que você chama de religiosas são pessoas que sabem tudo — o que é certo e o que é errado, o que fazer e o que não fazer. Elas têm consigo todos os mandamentos. Por isso é que as pessoas religiosas se tornam teimosas, insensíveis. Sua caminhada parou; elas não estão crescendo, em absoluto. O rio não está se movendo; ficou estagnado. Se você quer movimento, crescimento — e movimento e crescimento infinitos são possíveis porque Deus não é um ponto estático, mas o total movimento da vida, da existência —, se você quer caminhar com Deus, então precisará se mover continuamente. Você precisa estar continuamente a caminho.

Aliás, a jornada jamais termina. Uma estrada termina, outra se abre; uma porta se fecha, outra se abre. Um pico mais alto sempre está lá. Você chega a um pico e já ia descansar, pensando que havia conquistado tudo — subitamente, um pico mais alto ainda aparece adiante. De pico em pico, nunca chega ao fim; é uma jornada sem fim. Deus é uma jornada sem fim. Por isso é que apenas aqueles que são muito, muito corajosos — tão corajosos que não se importam com a meta, mas ficam felizes com a própria jornada, apenas para se mover com a vida, fluir com o rio, apenas para viver o momento e crescer dentro dele —, apenas esses são capazes de caminhar com Deus.

[...]

Um homem que julga demais está impedindo seu crescimento de toda maneira. E uma vez que o julgamento se estabeleça dentro, você se torna incapaz de ver o novo. O julgamento não vai permiti-lo, porque ele fica perturbado pelo novo. Então, você viverá de olhos fechados. Você não é cego, ninguém é cego, mas todo mundo se comporta como se fosse — e precisa se comportar, pois os julgamentos estão ali. Se você abrir os olhos, o medo é que possa ter que ver alguma coisa, que alguma coisa possa ser encontrada e que você possa ter que mudar seu julgamento. E o julgamento é tão confortável! Você se estabeleceu numa casa e se esqueceu da estrada, da jornada, do esforço, do contínuo movimento e dos perigos e dificuldades. Você se esqueceu da aventura e se fechou numa casinha pequena, aconchegante, confortável. Agora você tem medo de olhar para fora da janela; você a mantém fechada. Agora você tem medo de abrir a porta. Quem sabe? — alguma coisa estranha pode entrar por ali e perturbar todo o seu conforto, o seu aconchego e segurança.

[...]

A vida é tão encantadora, tão mágica, um tal milagre! A cada momento milhões de milagres estão acontecendo ao seu redor — mas você vive de olhos fechados, com seus julgamentos. [...]

Você ama uma mulher, e mesmo que poucas horas se passaram e que a lua-de-mel não tenha ainda terminado, já a poeira começa a se juntar em volta dela. Ela já não é mais tão bonita como costumava ser poucas horas antes; já não é tão significativa como costumava ser. O que aconteceu? Você acha que chegou a conhecê-la — você a julgou. Sente que agora ela já não é mais uma estranha — você a conhece. Como é que você conhece uma pessoa? Uma pessoa é um processo infinito. Você jamais pode conhecer uma pessoa.

Pela manhã a flor é diferente — porque a manhã é diferente! E o sol está nascendo, os pássaros cantando e a flor é uma parte do todo. Nas pétalas da flor você pode cantar a canção dos pássaros de manhã, pode ver os novos raios penetrando-a, uma nova vida pulsando nela. A tarde é uma flor diferente. Todo o clima mudou. O sol já não é o mesmo, os pássaros não estão cantando. Ela já está morrendo. O sol começou a se pôr, a noite vem chegando. A flor está ficando cada vez mais triste — é uma nova disposição de espírito. Não é a mesma flor que você viu de manhã. A noite a flor vai morrer; está triste demais. Mesmo que cante uma canção, será uma canção triste. Você pode ver sua própria morte na flor, se estiver atento. Pode ver, na flor morrendo, a vida e a morte se encontrando, a vida transformando-se em morte. E um estado de espírito totalmente diferente.

Você não pode conhecer nem mesmo uma flor em sua totalidade, devido a seus milhões de estados de espírito. Como você pode conhecer uma pessoa? Uma pessoa é uma consciência em florescimento, a maior das flores que foi possível existir através de milênios de evolução. Como você pode conhecer sua esposa? No momento que pensar que a conhece, você está acabado, fez um julgamento — e já está procurando outra mulher. Não, uma esposa permanece uma estranha, se seus olhos estão claros. E você vai atravessar muitas mudanças, muitas disposições de espírito, muitas faces no ser de sua esposa, do seu marido, do seu filho, do seu amigo e do seu inimigo.

Ninguém jamais vem a conhecer qualquer coisa que seja. Mas a mente é astuta. A mente quer o conhecimento, porque somente com o conhecimento você está seguro. Com um estranho, há insegurança. Com o desconhecido a rodeá-lo de todos os lados você sente medo, não sabe onde está. Quando você não conhece a situação — as pessoas, as flores, as árvores, aquilo que o rodeia —, quando você não conhece isso, não sabe quem você é; sua própria identidade fica perdida. Tendo certeza de que conhece sua esposa, seu filho, seus amigos, sua sociedade, isto e aquilo, que sabe a história e a geografia — com todo esse conhecimento que o está cercando, de repente você sente quem é: o conhecedor. O ego surge, se fortalece.

[...]

Não se estabeleça. Este é o significado do saniasin errante. Na índia nós o tentamos. Uma pessoa se torna um errante, sem lar, sem apegos, sem raízes em parte alguma, sem identidade. A pessoa vive com o desconhecido, momento a momento — tudo surpreende. Para você, nada surpreende. Você sabe tudo, como pode algo surpreendê-lo? Nada o assombra. Tudo surpreende quando você vive em ignorância. Quando você vive no não-conhecido, tudo é novo — não há nada para comparar, para relacionar com o passado e com o futuro — tudo é único. Nunca foi antes, jamais será outra vez. Se você perder este momento, o perderá para sempre. Não há volta.

Cada momento é uma nova disposição de espírito na existência. Ou você o desfruta, vive-o, ou o perde. Através do conhecimento você o perde, porque diz: "Eu sei". Se lhe digo: "Saia de sua casa — o sol nasceu, é lindo", você responde: "Eu sei; muitas vezes, muitas manhãs eu me levantei mais cedo e o vi. Eu sei — não me amole". Mas o sol de hoje jamais existiu antes e o você de hoje jamais existiu antes, e o eu de hoje chamando-o para sair jamais existiu antes.

Tudo é absolutamente novo e original. Só sua mente é velha. Através do conhecimento a mente fica velha. Quando você está velho, tudo parece empoeirado, usado, de segunda mão. E você fica entediado. O fastio mostra que você não sabe viver em ignorância. Uma criança jamais fica entediada; tudo a surpreende e a espanta. Ela vive continuamente maravilhada, e esta é a qualidade da mente religiosa: viver continuamente maravilhada, constantemente maravilhada; fazer do maravilhar-se seu próprio estilo de ser. Então, repentinamente, você vê que o mundo todo é totalmente diferente; não é o mundo que você costumava ver. Porque você não é mais o mesmo, o mundo não pode ser mais o mesmo.

Não julgue e não faça do seu conhecimento uma prisão. Mantenhase livre, desapegado, errante. Estes são símbolos. Um saniasin sem lar significa que ele está desligado do passado; ele não tem raízes no passado. Não é que ele fique simplesmente vagando como um vadio; sua vadiagem é mais profunda: ele é um vadio espiritualmente. [...]

Quando dizemos, ou quando eu digo, torne-se um errante, não quero dizer literalmente. Quero dizer viver uma vida errante interiormente, não-estabelecida, desapegada, sem passado; apenas este momento, este momento como o total, como se este momento fosse tudo. Então, de súbito, você se torna consciente: consciente do oculto, do invisível, do desconhecido que o cerca de todos os lados. É um imenso oceano de fatos absolutamente novos, surgindo e desaparecendo. [...]

O julgamento é uma barreira. E você julga não somente coisas comuns; o julgar se torna um hábito que você não pode impedi-lo. No momento em que algo está aí, você imediatamente julga — não perde nem um instante. E quando encontra uma pessoa como Buda ou Dhun-Nun, o mestre Sufi, você está perto da fonte original de uma consciência constantemente renovada. Nada é velho, nada vem do passado. A mente vem do passado; a consciência jamais vem do passado — a consciência vem deste momento.

A mente é tempo e a consciência é eternidade.

A mente se move de um momento para outro em plano horizontal. É como um trem de ferro: muitos compartimentos unidos, passado e futuro, como um trem; muitos compartimentos unidos em um plano horizontal. A consciência é vertical; ela não vem do passado, não vai para o futuro. Neste momento ela mergulha verticalmente nas profundezas ou sobe verticalmente para as alturas. Este é o significado de Cristo na cruz — e os cristãos perderam o significado completamente. A cruz não é senão uma representação, um símbolo de duas linhas que se encontram: a vertical e a horizontal. As mãos de Cristo estão espalmadas na horizontal. Seu ser interior, exceto as mãos, está na vertical. Qual é o significado? O significado é: a ação está no tempo, o ser está além do tempo. As mãos simbolizam ação. Jesus está crucificado com suas mãos na horizontal, no tempo.

A ação está no tempo. Pensar é uma ação, é uma ação da mente. Isso também está no tempo. E bom saber que as mãos são a parte mais externa do cérebro. Elas são unas, a mente e as mãos; a cabeça está unida às mãos. A cabeça tem dois hemisférios: o direito está ligado à mão esquerda, e o esquerdo está unido à mão direita. As mãos são o alcance da mente dentro do mundo, o alcance da mente na matéria — porque a mente é também uma matéria sutil. Toda ação, física ou mental, está no tempo. 

Seu ser é vertical. Ele vai às profundezas e às alturas — não às laterais. Quando você julga, torna-se cada vez mais identificado com a horizontal, porque como é que você vai julgar? Para o julgamento, o passado será necessário. Você pode julgar algo sem trazer o passado? Como poderá julgar? Onde irá buscar o critério? Você diz que este rosto é bonito. Como você julga? Você sabe o que é a beleza? Como pode julgar este rosto como sendo bonito? Você conheceu muitos rostos; ouviu muita gente falar de rostos bonitos. Você leu a respeito em novelas, viu em filmes — acumulou uma noção, no passado, do que é a beleza. É uma noção muito vaga, e você não pode defini-la. Se alguém insistir, você vai ficar atrapalhado e confuso. E uma noção muito vaga, como uma nuvem. Então você diz: "Este rosto é bonito". Como você sabe? Você está trazendo à tona uma experiência do passado, comparando este rosto com aquela vaga noção de beleza que acumulou através da experiência.

Se você não trouxer o passado à tona, então uma qualidade totalmente diferente de beleza acontecerá. Não vai ser um julgamento seu, não virá de sua mente, não será imposto, não será uma interpretação. Será simplesmente uma participação com este rosto aqui e agora, uma participação profunda com este mistério, com esta pessoa aqui e agora. Nesse momento a pessoa não é bonita nem feia; todos os julgamentos desapareceram. Um mistério desconhecido está ali, sem nome, sem julgamento — e somente nesse momento, fora de qualquer julgamento, o amor floresce.

[...] 

Quando você olha para uma pessoa e se comunica sem julgamento —se bonita ou feia, se boa ou má, pecadora ou santa —, quando você não julga, mas simplesmente olha dentro dos olhos, sem julgamento, de repente um encontro está ali, uma fusão de energias. E esta fusão é maravilhosa, e esta beleza é totalmente diferente de todas as belezas que você já conheceu.

[...]

E se isto acontece com uma pessoa, aos poucos o mesmo também se torna cada vez mais possível em relação às coisas. Você olha para uma flor, sem julgamento, e de repente o coração da flor se abre para você; há um convite. Quando você não julga, há um convite. Quando você julga, a flor também se fecha, porque no julgamento está o inimigo. No julgamento está o crítico, não o amante; no julgamento há lógica, não amor; no julgamento há superficialidade, não profundidade. A flor simplesmente se fecha. [...]

Quando um Buda toca uma pedra, ela não é mais uma pedra — é viva, tem um coração pulsando dentro dela. Quando você toca uma pessoa, ela é uma pedra, já morta. Seu toque entorpece tudo, porque no toque há o julgamento, o inimigo, não o amigo.

Se é assim com as coisas comuns, então não será ainda mais assim quando você se deparar com estágios mais elevados de ser e consciência?

Não julgue. Muitos perderam Buda, milhões perderam Jesus e Zaratustra — apenas por julgar. Não repita esse exemplo estúpido. Sempre que você for a alguém com uma consciência um pouquinho mais alta do que a sua, não julgue, mantenha-se aberto. E muita ajuda será possível. Se você for com um julgamento, não irá de forma alguma. Se chegar com um julgamento, já terá perdido a coisa. Ponha a mente de lado!

[...] 

E o negócio vai longe...

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31 minutos atrás, Adriano disse:

. Muitos perderam Buda, milhões perderam Jesus e Zaratustra — apenas por julgar. Não repita esse exemplo estúpido. Sempre que você for a alguém com uma consciência um pouquinho mais alta do que a sua, não julgue, mantenha-se aberto

Milhares são ludibriados todos os dias por esse tipo de guru, exatamente porque sofrem essa lavagem cerebral para aprender a não julgar. O papo furado dele vai longe, mas não sobrevive ao choque com a realidade.

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